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Catedra
04/04/2011 - 11:22
Importante saber!
Quem se apresenta, hoje, na escola, no colégio, na universidade?
A Pequena Polegar
Michel Serres

Antes de ensinar qualquer coisa a alguém, é preciso, no mínimo, conhecer esse alguém.


                                                                    - I -

Esse novo aluno, essa nova estudante nunca viu bezerro, vaca, porco nem ninhada. Em 1900, a maioria dos seres humanos, no planeta, cuidava de lavoura e pecuária; em 2010, a França, como outros países parecidos, não conta sequer com um por cento de camponeses. Esta é, sem dúvida, uma das maiores rupturas da história desde o neolítico. Antes referenciada por práticas geórgicas, a cultura mudou.

Aquela ou aquele que vou lhes apresentar não vive mais na companhia de outros seres vivos, não habita mais a mesma Terra, e, portanto, não tem mais a mesma relação com o mundo. Ele, ou ela, não vê mais senão a natureza árcade das férias, do lazer ou do turismo.

- Ele mora na cidade. Mais da metade dos seus ancestrais imediatos povoavam os campos. Em compensação, ele tornou-se sensível às questões ambientais. Prudente, ele poluirá menos que nós, adultos inconscientes e narcísicos.

Ele não tem mais o mesmo mundo físico e vital, nem o mesmo mundo em números, tendo a demografia saltado para cerca de sete bilhões de seres humanos.

- Sua esperança de vida é de pelo menos oitenta anos. No dia do casamento, seus bisavôs juraram fidelidade por apenas uma década. Se ele e ela quiserem viver juntos, jurarão a mesma fidelidade por sessenta e cinco anos? Seus pais receberam herança por volta dos trinta anos, eles terão de esperar a velhice para receber o mesmo patrimônio.

Eles não têm a mesma vida, não vivem as mesmas idades, não conhecem o mesmo casamento nem a mesma transmissão de bens.

- Nos últimos sessenta anos, fato único na nossa história, nem ele nem ela conheceram a guerra. Daqui a pouco, os seus dirigentes e os seus professores tampouco a terão conhecido. Graças aos progressos da medicina e, na área farmacêutica, dos antálgicos e dos anestésicos, eles sofreram menos, estatisticamente falando, que seus antecessores. Terão eles sentido a fome?

Ora, religiosa ou laica, toda moral resumia-se a exercícios que visavam suportar uma dor inevitável e cotidiana: doença, fome, crueldade do mundo.

Eles não têm mais o mesmo corpo, nem a mesma conduta; nenhum adulto soube ou pôde inspirar-lhes uma moral adaptada.

- Enquanto seus pais foram concebidos às cegas, o nascimento deles foi programado. Como, para o primeiro filho, a idade média da mãe aumentou dez ou quinze anos, os professores não encontram mais pais de alunos da mesma geração.

Eles não têm mais os mesmos pais; ao mudar sua sexualidade, sua procriação se transformará.

- Enquanto seus predecessores se reuniam em salas ou auditórios culturalmente homogêneos, eles estudam hoje em uma agremiação onde convivem religiões, línguas, origens e costumes diversos. Para eles e para seus professores, o multiculturalismo virou regra nas últimas décadas. Durante quanto tempo poderão eles cantar ainda o ignóbil derrame de "sangue impuro" de algum estrangeiro?

Eles não têm mais o mesmo mundo mundial, eles não têm mais o mesmo mundo humano. Em volta deles, as filhas e os filhos de imigrantes, vindos de países menos ricos, tiveram experiências de vida inversas.

Balanço temporário. Qual a literatura, qual a História entenderá esses felizardos que não viveram a rusticidade, o gado e a colheita, dez conflitos bélicos, feridos, mortos e famintos, cemitérios, pátria, bandeira ensanguentada, monumentos aos mortos, sem terem experimentado, no sofrimento, a vital urgência de uma moral?

                                                                            - II -

Deixemos o corpo; passemos para o conhecimento

- Seus ancestrais cultos dispunham de um horizonte temporal retrospectivo de alguns milhares de anos, balizados pela pré-história, pelas tabuletas cuneiformes, pela Bíblia judaica, pela Antiguidade greco-latina. Hoje bilionário, o horizonte temporal começa pela barreira de Planck, passa pela acresção do planeta, pela evolução das espécies e por uma paleoantropologia milionária.

Tendo deixado de habitar o mesmo Tempo, passaram a se reger por outra História.

- Eles são formatados pela mídia, difundida por adultos que destruíram, meticulosamente, sua faculdade de atenção, ao reduzirem a duração das imagens para sete segundos, e o tempo das respostas a perguntas para quinze segundos, números oficiais; cuja palavra mais repetida é "morte", e a imagem mais mostrada, a de cadáveres. Com doze anos apenas, aqueles adultos forçaram-nos a ver mais de vinte mil assassinatos.

- Eles são formatados pela propaganda; como ensinar-lhes que a palavra relais, em francês, se escreve com -ais, quando o que se vê em todas as estações ferroviárias é a grafia relay? Como ensinar-lhes o sistema métrico quando, da forma mais burra do mundo, o programa de fidelização da SNCF é chamado s`miles?

Nós, adultos, reproduzimos nossa sociedade do espetáculo de uma sociedade pedagógica, cuja concorrência esmagadora, vaidosamente inculta, eclipsa a escola e a universidade. Em termos de tempo de escuta e de assistência, de sedução e de importância, a mídia há muito se apoderou da função de ensino.

Os professores são os menos escutados entre todos os instituidores. Criticados, desprezados, vilipendiados, já que mal pagos.

- Eles habitam, portanto, o virtual. As ciências cognitivas mostram que o uso da web, a leitura ou a escritura com os polegares dos torpedos, a consulta de Wikipedia ou de Facebook não estimulam os mesmos neurônios nem as mesmas zonas corticais que o uso do livro, da lousa ou do caderno. Eles podem manipular várias informações ao mesmo tempo. Não conhecem, nem integram, nem sintetizam como os seus ascendentes.

Eles não têm a mesma cabeça.

- Pelo celular, eles acessam todas as pessoas; pelo GPS, todos os lugares; pela web, todo o saber; assombram um espaço topológico de vizinhanças, ao passo que habitamos um espaço métrico, referenciado por distâncias.

Eles não habitam mais o mesmo espaço.

- Sem que apercebêssemos, nasceu um novo ser humano, durante um curto intervalo, aquele que nos separa da Segunda Guerra mundial.

Ele ou ela não tem mais o mesmo corpo, a mesma esperança de vida, não habita mais o mesmo espaço, não comunica mais do mesmo modo, não percebe mais o mesmo mundo exterior, não vive mais na mesma natureza; nascido sob peridural e com parto programado, não teme mais a mesma morte, sob cuidados paliativos. Não tendo a mesma cabeça que os seus pais, ele ou ela conhece de forma diferente.

- Ele ou ela escreve diferente. Para observá-lo, com admiração, mandar, mais rapidamente que eu poderia fazer com os meus dedos desengonçados, torpedos com os dois polegares, chamei-os, com toda a ternura de um avô, Pequeno Polegar e Pequena Polegar . Eis o nome deles, mais bonito que a antiga palavra, pseudocientífica, de datilógrafo.

- Eles não falam mais a mesma língua. Desde Richelieu, a Academia Francesa publica, de quatro em quatro anos, o dicionário de referência da língua francesa. Nos séculos anteriores, a diferença entre duas publicações se estabelecia em cerca de quatro a cinco mil palavras, números quase constantes; entre a última e a próxima, essa diferença será de cerca de trinta mil.

Nesse ritmo linguístico, é de se imaginar que, em poucas gerações, os nossos sucessores poderiam estar tão separados de nós quanto o somos do antigo francês de Chrétien de Troyes ou de Joinville. Esse gradiente traz uma indicação quase fotográfica das mudanças profundas que descrevo.

Essa imensa diferença, que atinge todos os idiomas, provém, parcialmente, da ruptura entre os ofícios dos anos cinquenta e os de hoje. A Pequena Polegar e o seu irmãozinho não mais se empenharão para as mesmas tarefas.

Mudou o idioma, mutou o trabalho.


                                                                          – III –

O indivíduo

Melhor ainda, eis que se tornaram indivíduos. Inventado por São Paulo, nos primórdios da nossa era, o indivíduo acaba de nascer há alguns dias. Será que percebemos o quanto vivíamos de pertencimentos, desde antigamente até há pouco? Franceses, católicos ou judeus, gascões ou picardos, ricos ou pobres, mulheres ou homens... pertencíamos a regiões, religiões, culturas, rurais ou aldeãs, grupos singulares, cidadezinhas, a um sexo, à pátria. Pelas viagens, as imagens, a web, as guerras abomináveis, quase todos esses coletivos explodiram. Os que restaram continuam estourando hoje, rapidamente.

O indivíduo não sabe mais viver em casal, ele divorcia; não sabe mais se comportar na aula, não fica quieto e tagarela com os colegas; não reza mais na paróquia; na última Copa, nossos jogadores não souberam formar um time; será que nossos políticos sabem construir um partido? Dizem que morreram todas as ideologias; são os pertencimentos que elas recrutavam que desvanecem.

Esse indivíduo recém-nascido traz uma boa notícia. Entre os inconvenientes do egoísmo e os crimes de guerra cometidos por e para a libido do pertencimento – centenas de milhões de mortes –, amo de amor esses jovens.

Isso posto, resta inventar novos laços. Testemunho disso é o recrutamento do Facebook, equipotencial à população mundial.

Como um átomo sem valência, a Pequena Polegar está pelada. Nós, adultos, não inventamos nenhum laço social novo. A dominação da crítica e da suspeita faz mais é destruí-los.

Raríssimas na História, essas transformações, que chamo “hominescentes”, criam, no meio do nosso tempo e dos nossos grupos, uma fratura tão larga que poucos olhares mediram seu verdadeiro tamanho.

Comparo-a, repito, às fraturas que ocorreram no neolítico, na alvorada da ciência grega, no início da Era Cristã, no fim da Idade Média e no Renascimento.

Na margem jusante dessa falha estão jovens aos quais pretendemos dispensar ensino, em âmbitos que datam de uma idade que eles não mais reconhecem: prédios, pátios de recreio, salas de aula, mesas, cadeiras, auditórios, campi, bibliotecas, laboratórios até, eu ia dizer até saberes... âmbitos que datam, digo, de uma idade e adaptados a uma era em que os homens e o mundo eram o que não são mais.


                                                                              - IV -

Três perguntas, por exemplo: O que transmitir? Para quem transmiti-lo? Como transmiti-lo?


O que transmitir? O saber!

Antigamente e há pouco tempo ainda, o saber tinha como suporte o próprio corpo do sábio, do aedo ou do griot africano. Uma biblioteca viva... eis o corpo docente do pedagogo.

Aos poucos, o saber objetivou-se em rolos, velinos e pergaminhos, suportes da escrita, e a partir do Renascimento, em livros de papel, suportes da impressão, finalmente hoje na tela, suporte de mensagens e de informação.

A evolução histórica da dupla suporte-mensagem é uma boa variável da função de ensino. A pedagogia mudou três vezes: com a escrita, os gregos inventaram a paideia; na esteira da prensa, os tratados de pedagogia pulularam. E hoje?

Repito. O que transmitir? O saber? Aí está ele, em todo canto da web, disponível, objetivado. Transmiti-lo para todos? A partir de agora, todo o saber está acessível por todos. Como transmiti-lo? Pronto, já está feito.

Com o acesso às pessoas, pelo celular, com o acesso a todos os lugares, pelo GPS, o acesso ao saber agora está aberto. De certo modo, ele já é transmitido sempre e em todos os lugares.

Objetivado, com certeza, mas, além disso, distribuído. Não concentrado. Vivíamos em um espaço métrico, repito, referenciado por centros, por concentrações. Uma escola, uma sala de aula, um campus, um auditório, essas são concentrações de pessoas, docentes e discentes, de livros em bibliotecas, dizem às vezes muito grandes, de instrumentos em laboratórios... esse saber, essas referências, esses livros, esses dicionários... ei-los distribuídos por todas as partes e, especialmente, nas nossas casas; melhor ainda, em todos os lugares aonde vamos; e, portanto, você pode contatar seus colegas, seus alunos, onde quer que estejam; e eles podem responder com facilidade.

O antigo espaço das concentrações – este mesmo onde estou falando e os senhores me escutando, o que fazemos aqui? – se dilui, se espalha; vivemos, como acabo de dizer, em um espaço de vizinhanças imediatas, mas, além disso, distributivo. Eu poderia falar com os Senhores da minha casa ou de outro lugar, e os Senhores poderiam me ouvir em outro lugar ou em sua casa.

Não digam, sobretudo, que faltam ao aluno funções cognitivas que permitam assimilar o saber assim distribuído, pois, justamente, essas funções se transformam com o suporte. Pela escrita e pela impressão, a memória, por exemplo, mutou a tal ponto que Montaigne quis uma cabeça bem-feita em vez de uma cabeça bem-cheia. Essa cabeça mutou.

Da mesma forma como a pedagogia foi inventada (paideia) pelos gregos no momento da invenção e da propagação da escrita; ela também se transformou quando surgiu a impressão, no Renascimento; a pedagogia está, do mesmo modo, se transformando totalmente com as novas tecnologias.

E, repito, elas são apenas uma variável qualquer entre a dezena ou a vintena que eu citei ou poderia enumerar.

Essa mudança tão decisiva do ensino – mudança repercutida em todo o espaço da sociedade mundial e em todas suas instituições obsoletas, mudança que não afeta apenas o ensino, como também a política e todas as instituições – é urgente, sentimos muito sua falta, embora estejamos ainda longe dela; provavelmente porque aqueles ainda atrasados na transição entre os últimos estados não se aposentaram ainda e continuam elaborando reformas segundo modelos há muito desvanecidos.

Tendo ensinado durante quarenta anos sob quase todas as latitudes do mundo, onde essa fratura se abre tão profundamente quanto no meu país, eu sofri aquelas reformas como emplastros em pernas de pau, como remendos; ora, emplastros danificam a tíbia, e remendos rasgam mais ainda o pano que procuram consolidar.

Sim, vivemos um período comparável com a alvorada da paideia, quando os gregos aprenderam a escrever e a demonstrar; comparável com o Renascimento, que viu nascer a impressão e o reino do livro; período incomparável, no entanto, uma vez que, ao mesmo tempo em que essas técnicas mudam, o corpo se metamorfoseia, mudam o nascimento e a morte, o sofrimento e a cura, o próprio vir-ao-mundo, os ofícios, o espaço e o habitat.


                                                                           - V -

Envio

Diante dessas mutações, convém inventar inimagináveis novidades, fora dos âmbitos obsoletos que ainda formatam nossas condutas e nossos projetos. Nossas instituições reluzem com um brilho que parece, hoje, com aquele das constelações, que a astrofísica nos ensinou serem mortas há muito.

Por que não aconteceram essas novidades? Eu acuso os filósofos, dentre os quais me incluo, pessoas cujo ofício é o de antecipar o saber e as práticas vindouras e que, na minha opinião, falharam, como eu, nessa tarefa. Empenhados na política do dia a dia, não enxergaram a chegada do contemporâneo. Se eu tivesse tido de esboçar o retrato dos adultos, nos quais me enquadro, ele teria sido menos lisonjeador.

Eu queria ter dezoito anos, a idade do Pequeno Polegar e da Pequena Polegar, posto que tudo está por refazer, não, posto que tudo está por ser feito.

Espero que a minha vida me dê tempo suficiente para trabalhar ainda em prol disso, na companhia daqueles Pequenos, a quem dediquei a minha vida, porque sempre os amei respeitosamente.


Michel Serres, filósofo, membro da Academia Francesa, pronunciou este discurso em uma sessão solene realizada, em 1º de março de 2011, na Académie Française, sobre os “Os novos desafios da educação”, a propósito dos resultados dos estudantes franceses de 15 anos de idade na pesquisa PISA-OCDE.

Tradução: Manuel Girard

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