A Observação

Teorias, conceitos e observação:

A Observação Científica

 

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Definições
O Objeto
A Observação

 

            Você acredita no que os seus olhos vêem? Você acha que o que vemos é o que realmente é? Então clique aqui e experimente algumas ilusões de ótica.

            Experimentou? Sensação estranha, não é? Às vezes nossos olhos nos enganam. Mas por que isso acontece? Será que é só os nossos olhos que nos enganam, ou nosso cérebro também faz parte desta história? Será que é só um problema da nossa fisiologia, ou a forma como somos educados a ver as coisas influencia a nossa visão?

            Nas ilusões que você viu há pouco pode parecer que o problema está apenas nos nossos olhos. Mas nem sempre é assim. Às vezes a gente se deixa influenciar pelas expectativas que temos do que vai ser visto. Quer ver? Então clique aqui e veja novas ilusões de ótica.

            Viu? A observação é um perigo. Mas ela é também uma das formas mais tradicionais de se chegar ao conhecimento científico, segundo o método de Newton.

            Pois é, segundo o método experimental-dedutivo, uma teoria só pode ser provada e utilizada se passar pelo teste da experimentação. E a experimentação é, basicamente, observação. Por exemplo, se eu digo que e=mc² (e isso é uma teoria, de Einstein, por sinal), eu devo comprová-la fazendo um experimento e observando se isso acontece na prática.

            Mas será que eu posso confiar assim na observação? Qual o papel dela na construção do conhecimento científico? Quais os seus limites? É isso que vamos ver nesta aula.

           

 

TEORIAS, CONCEITOS E OBSERVAÇÃO II: A OBSERVAÇÃO

 

            Podemos partir de duas suposições ingênuas acerca da observação científica. A primeira delas afirma que a ciência começa com a observação. A segunda, que a observação produz uma base firme e objetiva da qual o conhecimento pode ser derivado. (Chalmers, 1997: 46) Sabendo que a “observação” pode ser tida como uma modalidade, entre outras, de verificação (“ver” de verdade + ação) é possível estudarmos sob quais condições se dá este ato de aferição da verdade ou da falsidade do que se observa. Até que ponto os procedimentos científicos de observação independem das limitações físicas e intelectuais do observador? Até que ponto as limitações físicas e intelectuais do observador podem ser corrigidas pelos procedimentos científicos de observação?

            Vejamos a seguinte passagem do livro de Chalmers (op. cit.: 52):

“... embora as imagens sobre nossas retinas façam parte da causa do que vemos, uma outra parte muito importante da causa é constituída pelo estado interior de nossas mentes ou cérebros, que vai claramente depender de nossa formação cultural, conhecimento, expectativas, etc. e não será determinado apenas pelas propriedades físicas de nossos olhos e da cena observada.”

 

            Observar é uma coisa, ver ou enxergar é outra bem diferente, pois quem vê passa por uma experiência perceptiva e cognitiva própria. Quem vê teve que aprender a ver, a interpretar, a discernir o que estava sendo observado. Quantos de nós enxergaríamos os problemas diagnosticados por um médico a partir de uma radiografia? Quantos de nós identificaríamos as luas do planeta Júpiter pelas lentes de um super telescópio? Quantos de nós saberia diferenciar hemáceas do tripanossoma causador da Doença de Chagas? Ou até que ponto veríamos numa piscadela um tique nervoso ou um tipo de código usado para transmitir uma informação (por exemplo as intenções de um rapaz de seduzir uma moça)? Todos esses seriam exemplos de como o entendimento ou a verificação alcançada pelos sentidos de um pesquisador, em especial sua visão, depende de uma teoria ordenadora dos fatos observados.

“... quando alguém acorda cedo precisando urgentemente de café e reclama: ‘não há gás’, supõe-se que há substâncias no mundo que podem ser agrupadas sob o conceito ‘gás’, e que algumas delas, ao menos, inflamam-se. É preciso considerar também que o conceito ‘gás’ nem sempre foi disponível. Ele não existia até meados do século XVIII, quando Joseph Black pela primeira vez preparou dióxido de carbono. Antes disso, todos os ‘gases’ eram considerados amostras mais ou menos puras de ar. Quando avançamos em direção a afirmações do tipo das que ocorrem na ciência, os pressupostos teóricos tornam-se menos lugares-comuns e mais óbvios. Não é preciso muita argumentação para demonstrar que há uma teoria considerável pressuposta na asserção: ‘o facho eletrônico foi repelido pelo pólo norte de magneto’, ou pelo diagnóstico de um psiquiatra dos sintomas de abstinência de um paciente.” (Chalmers, 1997: 54)

 

            Explicações e descrições resultantes da observação (científica ou não) serão sempre o resultado do domínio de uma linguagem teórica e serão tão acuradas quanto a teoria utilizada e seus conceitos assim permitir. Vejamos, por exemplo, o conceito de “força” em física. Nesse caso “força” só é um conceito preciso porque faz parte de uma teoria, a mecânica newtoniana. Quando falamos em “força” no nosso dia a dia (“a força das circunstâncias”, “a força da chuva”, “a força dada a alguém”) acabamos falando imprecisamente justamente porque as teorias que informam estes usos são múltiplas e assistemáticas. (Chalmers, 1997:54) Como se pode perceber, teorias adequadas devem necessariamente preceder à observação para poder se chegar a resultados verificáveis sobre um determinado problema, que por sua vez só é formulado a partir dos conceitos e pressupostos contidos nessa mesma teoria. É neste sentido que se costuma dizer que as teorias antecipam a descoberta de novos fenômenos ou que o cientista apenas reconhece a realidade previamente conhecida pelas teorias.

Observações, experimentos ou pesquisas de campo são realizadas sempre que se deseja testar ou iluminar alguma teoria. Certa vez um renomado antropólogo inglês E. Evans-Pritchard comentou que “os fatos só podem ser selecionados e articulados à luz da teoria”, e completou, “se eu for acusado de descrever fatos como exemplificações de minha teoria, terei sido compreendido.” (Evans-Pritchard, 1969: 261 apud Clifford, 1998: 31)

            Já estamos em condições de responder as perguntas inicialmente propostas. Em primeiro lugar já sabemos que os procedimentos de verificação não oferecem por si sós respostas definitivas para as perguntas dos cientistas. Estas respostas são dados filtrados pelas teorias que orientam a observação possibilitando que vejamos coisas que antes passavam desapercebidas. Em segundo lugar, sabemos, por dedução da nossa primeira conclusão, que esta filtragem dos dados pelas teorias opera como uma ferramenta corretiva do visão dos pesquisadores. O que devemos nos perguntar agora é até que ponto esta “correção” não consiste em última instância numa “distorção” dos dados para se conformarem às nossas teorias, e se for este o caso, por que acreditamos que as ciências têm nos dito a verdade sobre as coisas quando elas, no limite, só podem nos dizer a verdade sobre aquilo que já era sabido ou previsto pelas teorias?

            É Rubem Alves, em seu texto “Pescadores e anzóis” (1996) que pode nos ajudar a pensar sobre estas questões. Para este autor “teorias” são análogas à “redes de pesca”, mas ao invés de serem feitas de fios e nós, sua trama é feita de palavras e significados, isto é, de conceitos. Redes de pesca e teorias são ferramentas de trabalho lançadas, no primeiro caso, para pegar peixes e, no segundo caso, para trazer à tona dados e informações que confirmem as expectativas do investigador-pescador sobre um determinado objeto de pesquisa. Como uma rede de pesca pode puxar fora d’água todo um conjunto de coisas que não são peixes alguns pescadores preocupados com o tipo e qualidade do peixe e não com seu volume ou quantidade preferiram os anzóis de diferentes tamanhos e formatos. Se as teorias podem ser equiparadas às redes de pesca, segundo o raciocínio de Rubem Alves, podemos dizer que os anzóis desempenham o mesmo papel que os métodos na observação científica. Os anzóis encontram-se amarrados às linhas do mesmo modo que os métodos às teorias, compondo assim uma metodologia.

            Porém, se os anzóis, as varas de pescar ou as redes não fazem de ninguém pescador, assim como o hábito não faz o monge, a metodologia por si só não faz de ninguém um cientista. É que a habilidade para uma determinada atividade, seja ela pescar, meditar ou investigar, não é dada pela ferramenta em si mesma. Um pesquisador ou pesquisadora habilidosa não é aquela que conhece uma grande quantidade de teorias e métodos, mas aquela que pratica, que utiliza as ferramentas ao seu dispor. A prática científica consiste, portanto, numa busca de conhecimento, mas esta busca parte do lançamento de redes teóricas sobre o mar da realidade. Muitas vezes se lança as redes sem sucesso. Utilizam-se anzóis, mas os anzóis deixam escapar muitos peixes. Outros tipos de anzóis são então inventados para fisgar os “peixes” que escapam. E assim vai-se juntando gradualmente no convés do barco todos os peixes de um imenso oceano. Por analogia podemos perceber que os cientistas só elaboram métodos e técnicas que dêem conta das perguntas previamente formuladas e que as respostas alcançadas não são as respostas definitivas, mas as respostas possíveis e antecipadas pelas ferramentas de obtenção dos dados. É nesse sentido que se pode dizer que os métodos e técnicas de uma pesquisa, vinculados a uma determinada teoria, “produzem” as repostas para os problemas anteriormente formulados, do mesmo modo que as técnicas e ferramentas de pescaria “produzem” ou “antecipam” os resultados da pesca. É como se as redes e os anzóis “atraíssem” somente os peixes para a qual foram desenhadas.

            Quanto mais se repetir a utilização destes procedimentos mais se aperfeiçoará as técnicas de pesquisa a partir de um conhecimento sistemático gradualmente obtido sobre um “objeto”. Dito de outro modo, as metodologias de pesquisa organizam a reflexão sobre os dados obtidos durante a pesquisa gerando conhecimento. Isso se dá a partir de hipóteses, que são teorias que pedem uma verificação através da experiência e/ou de experimentos. As leis ou interpretações científicas seriam enunciados acerca da “rotina” própria de um “objeto de pesquisa”. Uma análise de seu comportamento normal. Trata-se de um tipo de conhecimento que moldará outros olhares lançados sobre a realidade deste mesmo objeto, mas não só o olhar, ela moldará também o próprio teor da experiência humana com esta realidade. Aí reside a força, mas também a fraqueza da observação científica. Dito de outro modo:

“Da mesma forma como os anzóis predeterminam os resultados da pescaria, os métodos predeterminam o resultado da pesquisa. Porque os métodos são preparados de antemão para pegar aquilo que desejamos pegar.” (Alves, 1996: 49)

 

            E nem sempre o que se pega é verdadeiramente um “peixe”, mas antes, algo que se assemelha teoricamente a um peixe. É assim que muitos cientistas são enganados por suas observações e experimentos.

            Pensemos agora na divisão das ciências. Temos as “ciências da natureza ou exatas” e as “ciências humanas ou sociais”. Em cada uma das ciências assim divididas estudamos as teorias e aprendemos seus métodos como produtos acabados, isto é, como se tivessem caído do céu ou se originado da pura genialidade de determinadas pessoas. Apesar de didática esta forma de estudar e aprender gera uma distorção no nosso entendimento acerca do papel da teoria no fazer científico, pois acabamos supondo que as teorias são algo dado a priori ao invés de resultados de processos reflexivos laboriosa e lentamente construídos para tal fim. Daí as pessoas acharem que os métodos e teorias das chamadas “ciências exatas” são mais formais, criteriosos e explicativos do que os procedimentos acionados nas “ciências sociais”. É como se nas primeiras a objetividade a respeito de seus “objetos” fosse maior na inversa proporção em que o cientista como pessoa compartilha (ou não) da natureza do seu “objeto”.

            Mas será que existem conhecimentos mais ou menos objtivos ou na verdade existem objetos de estudo mais ou menos concretos, ambíguos, nítidos e assim por diante? Nesse caso, todos os cientistas, enquanto seres humanos que são se servem da imaginação para compreender a natureza dos dados que coletou, da informação que produziu e das teorias que organizou. Notem que para cada ponto de vista teórico existe um ou vários “pontos cegos” de interpretação. São os “peixes” que não são pegos pelo “anzol” ou pela “rede” tecida. Estes “pontos cegos” afetam todas as teorias e seus efeitos são mais ou menos prejudiciais conforme a natureza dos objetos de pesquisa. Vale dizer que os buracos ou furos da rede são tão importantes para garantir os resultados desejados da pesca quanto a largura ou espessura da trama dos fios. E que em última instância tudo depende do “peixe” que se quer pegar ou do “problema de pesquisa” que se logrou formular.