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Pesquisa para leigos

Muitas pessoas têm uma visão idealizada e encantada do que é a pesquisa científica. Para muitos quando se fala de pesquisa, se pensa na descoberta da teoria da relatividade ou na clonagem da ovelha Dolly. A verdade tem muito menos glória. A seguir tento desmistificar um pouco o trabalho do pesquisador.

O pesquisador: Albert Einstein
Nem todo pesquisador é um Albert Einstein. A maioria dos pesquisadores são pessoas bem normais com problemas bem normais (acordar de ressaca, lembrar de fazer o mercado) e ambições bem normais (comprar um novo carro, querer ser Xuxa ou Brad Pitt). A pesquisa em todos os campos da ciência está sendo realizada todo dia por milhares de pessoas que não tem nada de muito especial. Tem pesquisadores chatos, altruístas, esnobes, estúpidos, cultos, medíocres, etc.
As grandes descobertas: Dolly
Ao contrario do que a publicidade feita sobre as "grandes" descobertas pode dar a pensar, a pesquisa é feita de progressos quase insignificantes. Para uma descoberta do tipo de Dolly (primeira clonagem de um mamífero), são (dezenas de) anos de pequenos passos realizados por centenas de científicos. As publicações científicas na realidade são relatos de pequenas descobertas que poderiam parecer ridículas para muitas pessoas. A clonagem de Dolly não foi uma grande descoberta no sentido que foi só um passo a mais numa profusão de outros passos.
Novas idéias: A experiência do marciano
A verdade verdadeira é que descobrir novas idéias é muito difícil. Tente essa experiência: descrever os habitantes de um outro mundo ("marcianos"). Depois considere bem esta descrição, vai ver que não tem nada nela que não vem diretamente do mundo que nós conhecemos. Por exemplo, vamos pensar que um marciano tem três olhos, ou a boca no meio da barriga, ou oito braços como um polvo. Não tem nada realmente novo nisso. Só pegamos o mundo normal e tentamos mudar um pouco ele combinando coisas (polvo e humano) ou fazendo oposições com o que existe (3 olhos em vez de 2). Na verdade quem disse que um marciano teria que ter olhos, boca, barriga, braços até mesmo um corpo? Eles poderiam ser construídos sobre princípios completamente diferentes que nem conseguimos imaginar porque são totalmente diferentes de nossa realidade. Isso explica a dificuldade de se fazer pesquisa, de "inventar" novas idéias.
Descobertas científicas: O mecânico
Os pesquisadores não são seres extraordinários com mentes superiores. Todo mundo, todo dia, "inventa" novas coisas. Um mecânico confrontado com um novo problema vai inventar uma nova solução. As descobertas dos pesquisadores são do mesmo tipo. O mecânico é especialista na área de mecânica, o pesquisador pode ser especialista em medicina, informática, astronomia,... A única coisa realmente diferente entre o mecânico e o pesquisador é que o primeiro vai "inventar" uma técnica na qual ele não tinha pensado antes, mas que outras pessoas provavelmente já conheciam. O pesquisador tem obrigação de criar um conhecimento realmente novo o que quer dizer que ele deve conhecer tudo o que se faz ou já se fez no ramo dele para puder comprovar que sua invenção é realmente diferente do que se fazia antes. A diferença entre um pesquisador e um mecânico não é na invenção mas na abrangência do conhecimento prévio que cada um tem na sua área.
O trabalho
O trabalho do pesquisador é de achar novas idéias, e divulgá-las. O primeiro passo é de identificar um problema interessante, o que quer dizer que ninguém nunca resolveu e que realmente "dói na pele" de alguém. Para isso precisa de um bom conhecimento de base da sua área de pesquisa bem como ser sempre ciente dos últimos acontecimentos nesta área. A segunda etapa é de procurar uma solução para o problema ou pelo menos um início de solução. Como tudo mundo, pesquisadores têm prazos a respeitar e uma certa obrigação de produtividade. Normalmente, não é aceitável que o pesquisador fique anos pensando no problema dele sem produzir nada de tangível. Os órgãos que financiam a pesquisa querem ver resultados. Quando o pesquisador acha que tem um resultado interessante, ele/ela escreve um artigo científico descrevendo este resultado e o manda para publicação numa conferência ou numa revista da sua área. Esses artigos são avaliados por outros pesquisadores da mesma área e aceitos ou não para ser publicados. A conferencia ou a revista têm um número limitado de artigos que podem ser publicados. Só aqueles que são julgados mais interessantes (resultados mais inovadores sobre problemas mais importantes) são aceitos. Melhor um pesquisador é, mais artigos ele vai conseguir publicar.
O método científico

É comum gosar da lentidão e aparente exesso de formalidade da pesquisa. Inventores não acadêmicos se gabam de ter resolvido problemas com muito mais rapidez do que a pesquisa poderia ter feito. As vezes não é falso (outra vezes, se trata apenas de ignorância de soluções já existentes). É que o objetivo dos dois é diferente. O inventor quer resolver um problema, o pesquisador procura aumentar o conhecimento científico.

Como vimos com o exemplo do mecánico acima, todo mundo resolve problemas no seu dia-dia. O pesquisador quer criar conhecimento científico. Isso impõe regras extra que os outros não tem: O conhecimento criado precisa seguir as normas da ciência que procurem garantir a veracidade e universalidade do conhecimento criado. Por isso, o acadêmico tem que comprovar os fatos, garantir que suas experiências podem ser repetidas por outros, etc. Isso faz que é muito mais difícil afirmar qualquer coisa em ciência, e que os progressos sejam muito mais lento. De outro lado, tem-se uma certa garantia que cada progresso é genuino e não ira levar a ciência (os científicos) numa beco sem saída.

Deve-se notar que esta garantia não é absoluta, todo dia, idéias científicas prévias são abandonadas ou revistas. Faz parte do método científico que aceita o conhecimento como o melhor que se tem no momento, sempre sujeito a ser ampliado e corrigido. A diferênça com o conhecimento empírico é que essas correções acontecem com menos frequência e menos importância por causa de todas as precauções tomadas.

Os desvios: O vendedor de televisão
Como muitas atividades, a pesquisa se baseia essencialmente sobre a confiança recíproca entre os pesquisadores e a credibilidade de cada um. Se um especialista diz que sua televisão está danificada e precisa ser trocada por uma nova (que ele vende), você pode ou não acreditar nele dependendo da reputação que ele tem. Se você conhece muito bem eletrônica, será mais fácil decidir se pode acreditar nele. Quando um pesquisador descreve um novo resultado num artigo, os avaliadores do artigo (que vão decidir se vale a pena publicar este) tentam ver se realmente o resultado é novo, mas também se este parece plausível no estado corrente da arte. O bom pesquisador vai dar todas as informações necessárias para facilitar esta avaliação e para reproduzir os resultados, o enganador vai tentar esconder fatos ou mentir (bem como o vendedor de televisão pode esconder o fato que você simplesmente esqueceu de conectar a mesma). A avaliação se baseia também sobre a reputação do pesquisador. É mais fácil publicar para um pesquisador bem conhecido do que para um novato porque as pessoas conhecem o primeiro e confiam nele.
Os desvios: Avaliação dos pesquisadores
Como foi visto mais cedo, a qualidade de um pesquisador pode ser avaliada por exemplo pelo número de publicações que ele consegue (existem outras propostas mais rafinadas). Mas como por toda avaliação com recompensa ao(s) melhor(es), existem fraudes. Por exemplo, existem falsas conferencias científicas onde todo artigo submetido é aceito sem real avaliação, portanto que os autores pagam uma taxa de inscrição. Fraudes menores existem entre pesquisadores que se conhecem e ajudam os artigos dos amigos a serem aceitos ou artigos dos concorrentes a serem recusados. Como no caso do vendedor de televisão, a única defesa é na reputação: Grandes conferências não podem correr o risco de aceitar artigos não interessantes porque os participantes acabam percebendo e não assistiriam mais a essas conferencias. Pesquisadores conhecidos não podem ser muito parciais porque a reputação deles está em jogo.